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A última crônica — e o último título — de Nelson Rodrigues pelo Fluminense FC

Existem amores que sobrevivem ao tempo. Outros sobrevivem à dor. E alguns sobrevivem até mesmo à morte. O amor de Nelson Rodrigues pelo Fluminense era exatamente assim.



No dia 23 de agosto, o Brasil relembra o nascimento de um dos maiores escritores da história nacional. Dramaturgo genial, cronista brilhante, criador de personagens eternos e dono de frases que atravessaram gerações, Nelson não ajudou apenas a transformar o teatro brasileiro. Ele ajudou a transformar o futebol em literatura.


O “Anjo Pornográfico”, como ficou eternizado, enxergava o futebol de uma maneira que poucos conseguiram enxergar. Para ele, o esporte jamais foi apenas um jogo. Era tragédia, drama, epopeia, religião e delírio coletivo.E no centro de tudo isso… estava o Fluminense.


O tricolor que escrevia com o coração


Nelson Rodrigues carregava o Fluminense como quem carrega uma fé. Foi testemunha apaixonada de glórias históricas, de Fla-Flus eternos, da Copa Rio de 1952, da Taça de Prata de 1970 e de inúmeras tardes mágicas no Maracanã. Mas sua última alegria tricolor aconteceu em 30 de novembro de 1980. Apenas 21 dias antes de sua morte.


Naquele domingo, o Fluminense enfrentava o Club de Regatas Vasco da Gama na decisão do Campeonato Carioca. Nelson já estava muito debilitado. Doente, não conseguiu ir ao Maracanã. Ficou em casa.


Ao seu lado estava o filho, Nelsinho Rodrigues, encarregado de atualizar o pai sobre a final — mas com cautela, tentando proteger o coração já extremamente fragilizado do velho tricolor.


Só que existe uma coisa impossível de esconder de um apaixonado: um título do Fluminense.


O gol de Edinho e a última explosão de alegria


Quando o zagueiro Edinho marcou o gol da vitória tricolor por 1 a 0, o destino escreveu um daqueles roteiros que parecem impossíveis até para o próprio Nelson.

O Fluminense era campeão carioca.


E naquele instante, o velho cronista voltou a viver. Mesmo proibido pelos médicos de escrever, Nelson se recusou a deixar aquele momento passar em branco. A paixão foi mais forte que a doença. Mais forte que a exaustão. Mais forte que tudo. Com ajuda do filho, escreveu sua última crônica. E claro… ela era sobre o Fluminense.


A última crônica de Nelson


Em seu derradeiro texto, Nelson Rodrigues fez exatamente o que passou a vida inteira fazendo: transformou futebol em eternidade. Falou da “doce e santa vitória”, chamou os rivais de “idiotas da objetividade”, exaltou a alma tricolor e escreveu como quem já parecia saber que estava se despedindo. Uma despedida poética. Uma despedida tricolor.


Trechos da crônica carregam toda a essência de Nelson:

“Tudo começou há seis mil anos atrás.”
“Os idiotas da objetividade custaram a perceber a evidência ululante.”
“O Fluminense partiu para cima do Vasco como um leão faminto.”
“O futebol brasileiro está encarnado nos craques tricolores.”

Não era apenas um texto sobre futebol.

Era uma declaração de amor.


Nelson nunca foi embora


O tempo passou. Décadas se foram. O futebol mudou. O Maracanã mudou. O mundo mudou. Mas Nelson Rodrigues continua vivo em cada tricolor que trata o Fluminense como algo maior que um simples clube.


Porque o Fluminense, para Nelson, nunca foi apenas futebol. Era estado de espírito. Era paixão sem lógica. Era uma espécie de loucura bonita que só quem é tricolor consegue compreender. E talvez por isso sua última crônica tenha sido justamente sobre um título do Flu. Como se o destino tivesse decidido dar ao velho Nelson a despedida perfeita. Uma última explosão de alegria. Um último “Nense”. Um último Maracanã imaginário. E um último capítulo de amor eterno entre Nelson Rodrigues e o Fluminense FC.

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